segunda-feira, 30 de abril de 2012

Tecnologia estreita a relação professor-aluno


Facebook se atenta à tendência e lança plataforma exclusiva às redes de ensino
A presença da tecnologia nas salas de aula não é mais uma surpresa para professores e alunos. A diferença é que, agora, são as redes sociais que trabalham para marcar presença no ambiente educacional com mais especificidade, traçando um caminho inverso.

Nessa linha, o Facebook desenvolveu o “Groups for School”, com foco em escolas e universidades. O recurso permite a troca de conteúdos e informações acadêmicas e seu acesso é restrito apenas aos membros de cada instituição.

Do mesmo modo que ferramentas digitais, como iPads e computadores, o perfil do Facebook também estimula o aprendizado e estreita o relacionamento entre professor e aluno, principalmente nos ensinos fundamental e médio. “O aprendizado é mais eficaz quando o estudante tem uma boa relação com o docente. Ao participar de redes sociais e blogs, o professor se mostra mais antenado e acessível”, diz Wagner Sanchez, psicopedagogo e diretor acadêmico do colégio Copi.

Essas ferramentas também podem ser usadas fora do horário letivo. Cabe ao professor estimular debates nas redes sociais apenas sobre temas relacionados ao conteúdo escolar.

Apesar dos benefícios, as experiências em sala de aula e os métodos convencionais de ensino, como o uso da lousa, caderno e lição de casa, não devem ser descartados. De acordo com Sanchez, o professor não pode se acomodar com a inclusão da tecnologia na sala de aula, como, por exemplo, passar um filme e não debater o assunto ou solucionar uma equação matemática sem usar a lousa.

domingo, 29 de abril de 2012

Aprendendo de graça com os tops


Mais ágil, segunda onda da educação gratuita online amplia oferta de videoaulas; Brasil ganha portal com legendas para quem não sabe inglês

Sergio Pompeu, do Estadão.edu


Por que, na sociedade do conhecimento, os superastros estão na indústria do entretenimento? Professores podem ser superastros? Falando de professores, faz sentido gastarem o tempo em sala de aula entregando conteúdo, em vez de elaborar sobre ele? Se cai na conta da “ignorância” a culpa por boa parte dos males de um país (e do mundo), por que tão poucos têm acesso à educação?
Renato Pedrosa, da Unicamp, ensina Cálculo na Univesp TV: campeão de audiência - Youtube/Reprodução
Youtube/Reprodução
Renato Pedrosa, da Unicamp, ensina Cálculo na Univesp TV: campeão de audiência
A resposta para tudo isso pode estar na educação de graça online, acessível para todos. É esse espírito que une projetos da segunda onda da coalizão informal que se propõe a revolucionar o ensino em escala global. Para falar sobre esse processo, o Estadão.edu ouviu representantes de dois portais, o americano Coursera e o brasileiro Veduca, e da Universidade Virtual do Estado de São Paulo (Univesp) – que ganhará autonomia se a Assembleia aprovar um projeto enviado pelo governo paulista no dia 18.
Também no dia 18, o Coursera anunciou que recebeu de investidores US$ 16 milhões para produzir videoaulas, além do fechamento de parcerias com as Universidades de Stanford, Berkeley, Michigan, Princeton e da Pensilvânia. Em vez das pesadas estruturas criadas por consórcios de universidades para oferecer educação a distância que naufragaram nos anos 90, tanto o Coursera quanto seu antecessor imediato, o Udacity, nasceram de iniciativas individuais. Foram criados por professores que deixaram cargos cobiçados em Stanford na esteira do sucesso de três cursos presenciais transpostos para a web. Cada um deles atraiu no ano passado mais de 100 mil alunos de todo o mundo.
A ideia é oferecer cursos (na verdade disciplinas), normalmente divididos em módulos de uma dezena de aulas. “Nossa estratégia tem sido buscar parcerias com universidades top”, diz um dos criadores do Coursera, Andrew Ng, que dava aulas de Ciência da Computação em Stanford (leia entrevista neste link). “Estamos colocando o conteúdo dos cursos online, seja de Finanças ou de Ciência da Computação. Embora pertençam ao universo do ensino superior, muitos cobrem tópicos de interesse geral: poesia, sociologia, história da internet ou efeitos das vacinas na saúde humana.”
Na semana passada, o Coursera adicionou seis cursos aos sete que já estavam disponíveis. Nos próximos meses, serão mais 30, dados por professores-celebridades, como Charles Severance, da Universidade de Michigan, que vai contar em seis semanas, a partir de 23 de julho, a história da criação da web e de como ela funciona no curso História da Internet, Tecnologia e Segurança. “Para operar num mundo centrado na informação, precisamos entender como funciona a tecnologia em rede”, explica, no portal.
O trunfo de Severance, além da qualificação acadêmica em programação e design na web, é ter testemunhado o nascimento da rede e convivido com seus pais. Todos foram habitués do programa sobre tecnologia que o professor apresentou na TV americana na década passada.
Para a maioria do público brasileiro, porém, projetos como o Coursera não funcionam. Aliás, a onipresente barreira do idioma limita o acesso a toda a produção disponível desde 2002, quando o Massachusetts Institute of Technology (MIT) começou o programa OpenCourseWare, colocando aulas de seus professores na web.
Foi pensando nisso que o engenheiro aeronáutico Carlos Souza e três sócios lançaram, em março, o portal Veduca, que já oferece 70 aulas de professores de grandes universidades com legendas em português. Isso é apenas uma pequena parte do total de 4.712 videoaulas que serão traduzidas. Todas estão hospedadas no portal, organizadas por temas. “Queremos democratizar a educação de alta qualidade no Brasil”, diz Souza, ex-executivo da área de marketing da Procter&Gamble.
Graças ao portal, quem não fala inglês pode assistir ao curso sobre compaixão dado pelo dalai-lama em Stanford, um dos hits do Veduca. Souza ainda procura patrocinadores, mas acha que fez a coisa certa ao apostar na educação gratuita. Um dos termômetros são e-mails enviados de todos os cantos do País, como este: “Olá, tenho 13 anos, meu sonho é ser astrofísico, com esses vídeos estou aprendendo muito. Obrigado aos organizadores do site e a quem colocou a legenda para facilitar o aprendizado.”
Parte da comunidade que assiste ao Veduca participa até da legendagem do material, de forma colaborativa. Depois, a equipe do portal, de dez tradutores, confere o conteúdo e publica. “É como uma Wikipedia.”
A médio prazo, o Veduca quer produzir conteúdo com universidades daqui. O portal chamou a atenção do pró-reitor de Graduação da Unicamp, Marcelo Knobel, que procurou Souza para conhecer o modelo do negócio. “Nosso interesse é divulgar o que produzimos na Unicamp. É preciso pensar numa parceria adequada; não é correto uma empresa ter lucro a partir da iniciativa de uma universidade pública.”
Na esfera pública, uma das experiências mais interessantes hoje no País é a da Univesp, criada em 2009, que tanto oferece programas formais a distância quanto cursos livres, por meio da Univesp TV. Os primeiros têm processos seletivo e dão diploma: a universidade virtual tem duas licenciaturas (em Ciências, em parceria com a USP; e em Pedagogia, com a Unesp) e duas especializações (em Ética, Valores e Saúde na Escola; e em Ética, Valores e Cidadania na Escola, ambas em convênio com a USP).
A Univesp TV põe na web e no canal digital 2.2 da TV Cultura (acessível para quem tem TV com conversor) aulas, cursos e entrevistas. Embora a maioria do conteúdo produzido seja feita em parceria com a USP, Unesp e Unicamp, a TV fez a legendagem do fenômeno Justice, série de 12 aulas do filósofo político Michael Sandel (o Veduca também está fazendo sua própria versão do material em português). Gravado em 2009 em Harvard como uma série de TV, Justice migrou para a web e fez de Sandel uma celebridade em países como Japão e China.
Num auditório lotado em Harvard, o professor provoca alunos a refletir sobre temas espinhosos, muitos baseados em casos reais: existe justificativa moral para a tortura, o assassinato ou o canibalismo? Uma mãe de aluguel pode romper o contrato e ficar com o bebê? As reflexões servem para introduzir o pensamento de gigantes como Aristóteles, Kant e John Stuart Mills.
Nesta segunda-feira, 30, a Univesp TV estreia seu segundo curso legendado, de Introdução à História da Grécia Antiga, produzido por Yale. Dado pelo professor Donald Kagan, ganhador em 2002 da Medalha Nacional de Humanidades, uma das maiores distinções acadêmicas dos Estados Unidos, o programa tem 24 aulas.
“Nosso primeiro objetivo é oferecer programas que apoiam o aprendizado dos alunos de cursos certificados, são parte do material didático desses cursos”, diz a coordenadora geral da Univesp TV, Mônica Teixeira. “Mas também estamos, cada vez mais, acompanhando cursos regulares das universidades paulistas e colocando o registro na íntegra na TV.”
Em alguns casos, a própria Univesp TV chama professores e especialistas e sugere que desenvolvam cursos curtos. Um exemplo é a série de cinco aulas sobre mudanças climáticas dada pelo físico Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado (Fapesp) e ex-reitor da Unicamp.
Outro destaque é o curso de extensão gravados no Centro Maria Antônia da USP em que o sociólogo Gabriel Cohn, ex-diretor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), fala da obra de Max Weber, tema no qual é referência no País. Nesse caso, a Univesp TV inverteu o processo do Veduca: fez a versão para o inglês das aulas de Cohn.
“As pessoas no mundo da TV e da imprensa acham que não se pode apostar no cidadão instruído ou que quer se instruir”, diz Mônica. “Mas dá para apostar, sim, tranquilamente. Não vai atingir a massa, 80% da população, claro, mas tem um público hoje totalmente desassistido nos meios de comunicação. Acompanhar um curso pode ser uma coisa genial, deliciosa.”
A coordenadora da Univesp TV faz o que prega. Já encarou tours de force, como assistir às 36 aulas do curso de Eletricidade e Magnetismo do MIT OpenCourseWare, dado por um dos professores-celebridade da universidade americana, Walter Lewin. “Ele é fantástico.”
Mônica não mostra o mesmo entusiasmo com a estética dos programas de universidades estrangeiras. “Ao contrário do MIT, por exemplo, a gente quer fazer direito. Lá eles só colocam uma câmera na sala. Se o professor mostra uma transparência, por exemplo, isso não aparece no quadro, porque não tem ninguém manejando a câmera”, diz. “Trabalhamos com outro padrão de qualidade, porque somos uma televisão.”
O campeão de acessos da Univesp TV pode parecer improvável. É Cálculo 1, do professor Renato Pedrosa, curso regular de graduação do Instituto de Matemática, Estatística e Computação Científica. A primeira aula tinha na noite deste sábado, 28, 6.015 visualizações no canal da Univesp TV no Youtube (www.youtube.com/univesptv). No total, as 23 aulas de Pedrosa já tiveram mais de 15 mil visualizações.
Além de cursos como Cálculo 1 e Física 1, a Unicamp usou a parceria com a Univesp para criar uma grade mensal, com os programas Conversando sobre a Graduação e Aulas Magistrais, de grandes professores falando sobre temas como literatura, escravidão e aquecimento global.
Assistir a uma das Aulas Magistrais mais populares, Fisiologia do Amor, da Paixão e do Sexo, é uma experiência rica e desconcertante. Respeitado pesquisador do Instituto de Biologia, Miguel Arcanjo Areas usa e abusa do humor e de termos impublicáveis para falar de paixão, amor e sexo e sua relação com neurotransmissores.
A impressão geral da aula é a de programa de auditório que mistura tiradas capazes de ferir almas mais sensíveis, educação sentimental e orientação sexual, na linha da Marta Suplicy pré-política. Temperado com um repertório brega ao qual não faltam sertanejos e Fábio Jr. – Areas canta e arrisca falsetes. No final, é aplaudido de pé.
Muitos podem torcer o nariz, mas Areas consegue fazer da Aula Magistral um programa palatável tanto para alunos da Unicamp quanto para fãs do Pânico. Algo a se pensar quando a intenção é usar tecnologia para democratizar a educação.
SERVIÇO
Coursera (www.coursera.org)
Cursos com duração de 4 a 12 semanas sobre assuntos como Algoritmos, Teoria dos Jogos e Mitologia. As aulas são dadas por professores de Princeton, Stanford e das Universidades da Califórnia, de Michigan e da Pensilvânia
Udacity (www.udacity.com)
Criado por experts em robótica, oferece seis cursos na área tecnológica. Introdução à Inteligência Artificial, por exemplo, teve 160 mil alunos
Youtube EDU (www.youtube.com/education)
O maior portal de vídeos da web tem página de conteúdo educacional dividido em categorias como Universidade, Ensino Fundamental e Médio, e Aprendizado Para Toda a Vida
Veduca (www.veduca.com.br)
Site tem 70 aulas de professores de grandes universidades do mundo com legenda em português, mas promete oferecer versão de um total de 4.714 videoaulas
Univesp (www.univesp.ensinosuperior.sp.gov.br)
O programa do governo de SP vai se tornar uma universidade. Por enquanto, oferece graduação e pós em parceria com USP e Unesp. Parte das aulas e cursos livres estão disponíveis no site univesp.tv.br
Unicamp (www.prg.unicamp.br/aulas)
Aulas Magistrais reúne videos de grandes professores
Este aplicativo gratuito para iPad, iPhone e iPod touch tem um catálogo de mais de 500 mil palestras em vídeo ou áudio, livros e outros recursos educacionais de instituições como Stanford, Yale e MIT

sexta-feira, 27 de abril de 2012

O mundo muda rápido, e a escola estacionou

Professores escolhem a carreira por falta de opção, fazem faculdades que não os preparam e repetem o mesmo com os alunos


O mundo muda a uma velocidade cada vez maior. Minha geração só chegou a conhecer a Internet na idade adulta. Hoje, a Internet é realidade para boa parte dos estudantes brasileiros, e dificilmente eles compreendem um mundo sem ela. Além disso, a velocidade e a variedade das tecnologias, como celular, televisão, cinema, rádio, jornal impresso, entre outras, é enorme. Tudo muda a toda hora. Os jornais com menos textos. Os celulares com mais recursos. A TV e o cinema com fotografias cada vez mais rápidas, na velocidade de vídeo clipes. Tudo isto encanta, apaixona, conquista.
Diria que, se alguém dormisse pouco antes da promulgação da constituição de 88 (que universalizou o fundamental) e só acordasse hoje, ficaria espantado com a quantidade de mudanças no Brasil. Aumentamos a urbanização, os carros já não são ‘carroças’, o computador tomou conta de escritórios, repartições públicas e casas de classe média, as ‘Lan Houses’ pipocam nos bairros pobres, fogões, geladeiras e telefones ficaram mais populares e há mais lares, no Brasil, com celular do que com geladeira.E a escola? É certo que universalizamos o ensino fundamental e caminhamos para a universalização dos demais níveis de ensino, mas de que forma?
Porém, em um lugar esta pessoa que dormiu por anos se sentiria bem à vontade, quase como se tivesse acordado de uma soneca. Este lugar é a sala de aula.
Na sala de hoje, como na de 25 anos atrás, ainda há um professor à frente e um monte de aluno, em fileiras ou bagunçando. O professor ‘ditando’ um conteúdo que alguém, por algum motivo distante do pedagógico, provavelmente para vender mais livros e apostilas, acha que é importante.
O mundo muda rápido, e a escola estacionou. A universalização da educação, no Brasil, nada mais é do que uma tentativa, fracassada, de reproduzir o modelo de quando a escola era para poucos. Não dá pra ser assim. Esta educação bancária, em que se deposita conteúdos na cabeça dos alunos, ainda é herança do iluminismo. Da mesma forma que acreditava que todo conhecimento poderia ser colocado em um livro, os iluministas acreditavam que podia ser transferido para uma pessoa (e esta é a lógica da sala de aula até hoje).
Só que um cidadão médio, no iluminismo, somando todo conteúdo que sabia, conseguia colocá-lo em cerca de cinco quilos de papel. Hoje, cinco quilos de papel, de conteúdo, é menos do que a edição de domingo do New York Times. Se compararmos com a Internet então, e todo o conteúdo que existe nela, estes cinco quilos são muito pouco. Se antes, com menos conhecimento disponível, tinha algum sentido ensiná-los, agora não tem sentido nenhum.
Ao erro na opção de modelo de escola, somam-se outros. A universalização aumentou consideravelmente a proporção da população em carreiras na educação, com salários baixos sob a justificativa de que não dava para sustentar a ampliação do sistema com salários competitivos. Dois tipos de profissionais vão trabalhar com educação. Um é o de vocação, que escolheu ser educador, que faz da educação quase que uma atividade missionária. Estes são a minoria. O outro é aquele que não encontrou lugar melhor no mercado de trabalho. É aquele que menos se preparou, que escolheu faculdades e cursos mais fáceis e baratos que está na educação pelo salário, mas que certamente se dedicaria a outra profissão se conseguisse uma remuneração maior.
Todos estes educadores, sem contar com milhões de prováveis talentosos professores que optaram por outras carreiras, receberam uma realidade bem diferente de quando a escola não era para todos. Se antes todos os alunos, provenientes da classe alta e média, iam à escola com um vocabulário razoável, com conhecimentos prévios ajustados com o conteúdo da escola, de famílias que valorizavam a educação e acompanhavam seu rendimento, em sua maioria filhos de mães que não estavam no mercado de trabalho e que podiam auxiliar no processo educativo, hoje ficou tudo muito diferente.
O resultado óbvio da equação de professores despreparados, alunos com mais necessidades e tentativa de reproduzir o modelo anterior é obvio. O fracasso. Para atender à massa de pessoas interessadas em educação, que paga menos do que outras profissões com exigência de nível superior, mas mais do que pra quem não continua os estudos, proliferaram cursos de magistério, pedagogia e licenciaturas. Sem qualidade na base, sem qualidade no topo. A mesma lógica que afasta pessoas de vocação do ensino básico afasta do ensino superior. A concessão política do funcionamento de várias faculdades e universidades criou um péssimo sistema de formação de professores. Algumas raras exceções, geralmente nas universidades públicas, acabam mandando seus alunos direto para as salas de aula de escolas particulares.
A formação superior dos professores não difere, na lógica de estruturação e funcionamento, do que é a educação básica. Na educação superior as licenciaturas não formam educadores, formam biólogos, gramáticos, matemáticos, físicos, geógrafos, historiadores, etc. Incentivados pelo seu curso superior, cada professor faz o mesmo na sala de aula. Tentam formar pequenos gramáticos, geógrafos, matemáticos. É interessante notar que o professor de matemática, em geral, não sabe nada de literatura, o de geografia não tem ideia do que sejam as contas de física, o de história não se dá bem com matemática; mas todos querem que aluno saiba tudo de sua matéria.
As formações dentro da escola, quando existem, seguem um pouco a lógica do que são os coordenadores pedagógicos. Alguém lembra as atividades diárias de um coordenador pedagógico? Em geral é fazer horário, ver quem faltou, atender pai de aluno, intermediar conflito, substituir o diretor de escola, cuidar da logística da feira de artes e/ou ciências, organizar logística da festa junina, zelar pelo bom comportamento dos alunos, verificar preenchimento dos diários, cobrar entrega de notas, preencher formulários burocráticos, ‘entregar’ o Plano Político Pedagógico, entre outras atividades. Isto o coordenador não faz por desejo, faz por necessidade. Se não fizesse, a escola sairia de controle.
Eu pergunto: O que tem de pedagógico em tudo isto? Nada, ou quase nada. Mas, se isto é o que faz o coordenador pedagógico, nada mais natural que as formações de equipe estejam voltadas às áreas do trabalho diário. A práxis (prática) leva a isto, não a concordância do grupo. Parafraseando o educador Rubem Alves, mineiro da minha querida cidade de Lavras, ensinar o voo não é uma coisa possível. O voo (as capacidades cognitivas) já nasce com as pessoas, com os educadores e com os educandos. O voo pode ser encorajado, nunca ensinado.
Em uma sociedade em transformação, com as redes sociais aceleradas pela Internet, com conteúdo sendo produzido a toda hora e a todo momento, com qualquer aluno podendo chegar a uma aula sabendo mais de determinado assunto do que seu professor, com a necessidade de formamos pessoas com capacidades múltiplas, não tem mais nenhum sentido ‘engaiolar’ professores e alunos, levando-os de cá pra lá e de lá pra cá.
A essência do ser humano, do professor ou do educando, é o voo. E para encorajar o voo é preciso usar todo tipo de ferramenta disponível no mundo moderno. Não existe uma receita pronta em que computador mais internet, mais programa educativo, mais sistema de ensino, mais lousa interativa, mais tablets é igual a super educação. Não existe porque somos seres diversos.
Aí está a grande dificuldade em ser educador, e aí está o que não pode ser ensinado. Cada grupo, ou até mesmo cada aluno, reage diferente a diferentes estratégias de educação ou de ensino-aprendizagem. A organização atual no Brasil atende sim alguns alunos, mas talvez nem 10% do total. A imensa maioria não se sente atraída pela escola, não a reconhece como espaço de reconhecimento, de afirmação identitária.
O grande desafio para os educadores é justamente poder preparar cada aula com muito cuidado, usando tecnologias mais próximas do educando, fazendo da aula anterior uma avaliação para a formulação da atual, não organizar a aula focado nas necessidades dos ditos ‘melhores alunos’ da sala, considerar as diferenças entre os educandos, fazê-la inclusiva e, mesmo assim, estar preparado para que tudo que foi planejado dê errado e que a aula tenha que ir por um outro caminho, muito diferente do planejado. Sim, é difícil, muito difícil. Mas não fazer isto é aceitar que a educação seja instrumento de justificação das diferenças sociais.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

A new initiative for creating and sharing educational lessons reaches the traditional classroom and beyond

TED-Ed-banner.jpg
For years TED has fulfilled their mission of spreading ideas and inspiration through conferences, media and research fellowships. Taking this a step further and in the direction of generations to come, today TED launches a new TED-Ed initiative to assist educators and students worldwide. Understanding the evolutionary role of video in the modern classroom (and beyond), the new TED-Ed site offers a structured avenue for repurposing content by allowing teachers to "flip" any video on YouTube—including but not limited to TED-Ed videos—into a sharable lesson ripe with quizzes, informational copy and attention keeping animations.

terça-feira, 24 de abril de 2012

Total de tablets em uso deve chegar a 760 milhões em 2016, diz estudo


A base instalada de tablets deve chegar a 760 milhões de unidades em todo o mundo em 2016, de acordo com novo estudo da consultoria Forrester Research. As vendas desses dispositivos, que fecharam 2011 em 56 milhões, deverão crescer 46% a cada ano e, em 2016, devem chegar a 375 milhões de unidades.
No mesmo ano, no entanto, as pessoas ainda usarão 2 bilhões de PCs em todo o mundo - o que deixa os tablets bem atrás do mercado de computadores tradicionais. Segundo a Forrester, os tablets devem ganhar significativa fatia de mercado, principalmente nos países emergentes: por conta do preço e mobilidade, as pessoas tenderão a comprar um tablet em vez de um desktop ou notebook. Esses países representarão 40% do mercado.
Foto: ReproduçãoSegundo estudo, tablets serão "aposentados" por usuários após três anos após a compra
A pesquisa mostra que a Apple, que inaugurou o mercado de tablets ao lançar o primeiro iPad, estará a frente do mercado em 2016, apesar de sofrer uma redução significativa em sua participação de mercado. A tendência já foi apontada por estudos de outras consultorias, mesmo sendo realizados a partir de metodologias distintas. Segundo o estudo, a empresa terá participação grande entre os tablets para o segmento corporativo, que representação um terço do total.
No caso dos tablets com Android, apesar das previsões de outras consultorias, como o IDC, afirmarem que eles superarão as vendas do iPad em alguns anos, os dados da Forrester mostram o contrário. Apesar do crescimento nas vendas dos tablets com Android, a consultoria afirma que o Google e as fabricantes terão dificuldade em competir com o iPad entre os tablets com preço mais alto. Outro desafio será a proliferação de fabricantes que adotarão versões modificadas do Android, incompatíveis com outros aparelhos do mercado.
No estudo, a consultoria considera a chegada do Windows 8 ao mercado, nova versão do sistema operacional da Microsoft que também funcionará em tablets. Para a Microsoft, no entanto, o mercado só deve começar a decolar em 2014, de acordo com o estudo, já que a empresa deve focar seus investimentos em aperfeiçoar a interface Metro, já que é a primeira investida no mercado de tablets.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Ronaldo Lemos: Educação será revolucionada pela tecnologia

Se São Tomás de Aquino reaparecesse hoje vindo da Idade Média, ficaria surpreso ao ver um hospital ou um prédio em construção. Mas se sentiria em casa ao ver uma escola. As salas de aula até hoje são organizadas como no fim da Idade Média: o professor na frente e os alunos (grande parte entendiados) ouvindo o que ele tem a dizer.

A educação cedo ou tarde será revolucionada pela tecnologia. Pense no material didático. Se bem transposto para o digital, tudo muda. Pode tornar-se ferramenta em constante transformação. Alunos e professores participando de seu aperfeiçoamento constante. Cada tópico gerando uma discussão multimídia, com alunos de diferentes escolas disputando soluções originais.

Um desafio é que a educação ainda é excessivamente baseada no texto. Só que a vida dos alunos é cada vez mais rica em mídias: vídeos, sites, redes sociais, música e remixes. "Quando chegam na escola, volta o reinado do bom e velho texto", afirma Ronaldo Lemos.

A esse respeito, ganha força o movimento internacional dos Recursos Educacionais Abertos.

A ideia é fazer com que todos materiais didáticos sejam colocados online de forma livre para serem manipulados, adaptados e remixados (o modelo tem apoio da UNESCO).
"Faz muito sentido", diz o colunista da Folha. Nada mais pobre do que colocar material didático em PDF, formato que só reproduz limitações do mundo físico no digital. "O desafio hoje, é construir novas relações entre a informação e envolver alunos e professores neste processo". Ouça.


Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/multimidia/podcasts/1078932-ronaldo-lemos-educacao-sera-revolucionada-pela-tecnologia.shtml

domingo, 22 de abril de 2012

Brasil faz Parceria com americana Qualcomm para expandir banda larga

Empresa é líder mundial em tecnologia de telecomunicações e vai montar um centro de tecnologia em São Paulo.

Agência Brasil


BRASÍLIA - O ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, anunciou nesta sexta-feira (20) parceria com a empresa americana Qualcomm Incorporated para ajudar na expansão dos serviços de banda larga móvel no país e na massificação do uso de smartphones e tablets. A empresa é líder mundial em tecnologia de telecomunicações e vai montar em São Paulo um centro de tecnologia para desenvolver aplicações destinadas a smartphones e tablets, em colaboração com empresas fabricantes. É a primeira vez que a empresa americana, líder mundial em tecnologia sem fio, faz acordo desse tipo com um país da América Latina. Está previsto também no acordo a criação de um laboratório de testes, mas a empresa se esquivou de revelar o volume dos investimentos.
O ministro Paulo Bernardo informou que já discutiu com o Ministério da Fazenda a possibilidade de o governo promover desoneração para os novos dispositivos que forem desenvolvidos com o fim de "massificar de forma mais rápida as telecomunicações". O foco principal é o meio rural, onde esses serviços são deficientes. O objetivo do governo é levar tecnologia de quarta geração para a zona rural, com o uso da frequência de 450 megahertz, ideal para áreas distantes.
Bernardo já discutiu a questão da desoneração com o secretário-geral do Ministério da Fazenda, Nelson Barbosa. De acordo com o ministro, não haverá prejuízo de arrecadação com novas desonerações. "Não vamos abrir mão de receita que já existe, porque estaremos trazendo produção do exterior para cá, permitindo aumento de receita e não redução. E novas fábricas poderão gerar muitos empregos e pagar tributos. É o mesmo tratamento que damos aos computadores, laptops, netbook e tablet", explicou, sem informar quando as medidas poderiam ser tomadas.
A Qualcomm vai participar também do programa Ciência sem Fronteiras, dos ministérios da Ciência, Tecnologia e Inovação e da Educação, na concessão de bolsas para estudantes interessados em desenvolver conhecimento nessa área.
O presidente da Qualcom Incorporated, Rafael Steinhauser, prevê que os dispositivos de telecomunicações deverão passar a trabalhar sempre em plataformas de comunicação em nuvem, que permite acesso irrestrito em quaisquer partes do mundo. Segundo ele, a plataforma sem fio é a principal plataforma computacional utilizada no mundo.
"No mundo do celular, como do computador e da TV, tudo está convergindo para o sistema de plataformas operacionais não só abertas, que permitem utilização de aplicativos no mundo inteiro, mas também usando a plataforma com aplicativos em nuvem. O Brasil precisa participar disso também, de forma que o usuário faça acessos com o mundo inteiro, independentemente da marca de seu aparelho", defendeu. "Tudo isso é muito importante também na própria indústria, na área da publicidade, na área social, na mídia, na saúde, na educação e na área de entretenimento e de jogos".
A Qualcomm Incorporated emprega em todo o mundo 21 mil funcionários em 172 localidades espalhadas por 34 países. Em 2011, ela teve receita de US$ 15 bilhões, com crescimento de 36% sobre 2010. No primeiro trimestre deste ano o faturamento foi de aproximadamente US$ 5 bilhões, com crescimento de 28% sobre o mesmo período do ano passado, quando investiu US$ 3 bilhões em pesquisas na área de telecomunicações sem fio.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Ex-aluna de escola pública fará curso na 'universidade do futuro'

Karla Lopez ganhou prêmio para estudar na Singularity University (EUA)

Juliana Deodoro

Quando se formou no ensino médio na escola técnica Basilides de Godoy, em São Paulo, Karla Amaral Lopez, de 30 anos, não poderia imaginar que anos depois seria escolhida para ter aulas com os maiores nomes em tecnologia e empreendedorismo do Vale do Silício. Karla foi a vencedora do concurso Call to Innovation, promovido pela Fiap, e recebeu uma bolsa de estudos para o curso de verão da Singularity University (SU), cujo câmpus fica em instalações da Nasa em Mountain View, na Califórnia. “Estou muito empolgada, quero que as aulas comecem amanhã”, conta.

Karla foi escolhida por ter apresentado o melhor projeto empreendedor que usa tecnologia para resolver um desafio brasileiro. Chamado “Minha vida é ensinar”, propõe a criação da plataforma online Obaiti, na qual professores possam trocar iniciativas bem sucedidas nas salas de aula. Os educadores mais bem avaliados poderão vender suas sugestões no site e até gerar uma renda extra ao salário.

“Quis criar uma solução que fosse imparcial e independente, feita por professores e para professores. Vamos trazer as ideias extraordinárias da escola de hoje para as pessoas que estão trabalhando nas instituições brasileiras”, diz Karla. "A educação é um problema muito difícil de resolver, mas é um problema que vale a pena.”

A Obaiti deve entrar no ar em breve. A intenção de Karla, no entanto, é apresentá-la aos seus colegas da SU e, quem sabe, agregar mais valores e possibilidades ao projeto. “Eles me ajudarão a formatar esse modelo em algo que faça sentido para todo mundo”, afirma. “Terei um ambiente próprio para expor essas ideias, colocá-las a prova e conviver com pessoas com bagagens diferentes que só vão acrescentar.”



Fonte: http://www.estadao.com.br/noticias/vidae,ex-aluna-de-escola-publica-fara-curso-na-universidade-do-futuro,862644,0.htm

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Mark Prensky: " O aluno virou o especialista."


ENTREVISTA - MARC PRENSKY

  DivulgaçãoQUEM É
O nova-iorquino – formado em francês e matemática, com especializações pela escola de Artes e Ciências de Yale e pela Harvard Business School – é especialista em tecnologia e educação


O QUE FEZ
Fundou a Game2train, uma instituição de ensino a distância que desenvolve games usados para ensinar


O QUE PUBLICOU
Ensino com jogos digitais (2001), Mãe, não me amole, estou aprendendo (2005) e Ensinando nativos digitais (2010)


ÉPOCA – Desde o surgimento do termo nativos digitais, a tecnologia avançou e o perfil do usuário envelheceu. Os nativos ainda podem ser definidos pela idade? 
Marc Prensky – 
Na verdade, eles nunca foram, a não ser indiretamente. Nativos digitais e imigrantes digitais são termos que explicam as diferenças culturais entre os que cresceram na era digital e os que não. Os primeiros, por causa de sua experiência, têm diferentes atitudes em relação ao uso da tecnologia. Hoje, há muito mais adultos que migraram e, nos Estados Unidos, quase todas as crianças em idade escolar cresceram na era digital. Pode ser que em alguns lugares os nativos sejam separados dos imigrantes por razões sociais.

ÉPOCA – Então os imigrantes, com o tempo, tendem a desaparecer. 
Marc Prensky – 
Em algum momento, é claro, todos terão nascido na era digital. Estamos a caminho de algo novo: a era do Homo sapiens digital ou a era do indivíduo com sabedoria digital. Para compreender o mundo será preciso usar ferramentas digitais para articular o que a mente humana faz bem com o que as máquinas fazem melhor. Nesse futuro, a diferença de idade e as diferenças entre nativos e imigrantes certamente serão menos relevantes.

"Para que a tecnologia tenha efeito positivo no aprendizado, 
o professor primeiro tem de mudar o jeito de dar aula"

ÉPOCA – Muitas escolas que compraram uma lousa digital ou montaram um laboratório de informática descobriram que o aparato tecnológico não funciona sozinho. O que dá certo na hora de ensinar essa nova geração? 
Marc Prensky – 
Introduzir novas tecnologias na sala de aula não melhora o aprendizado automaticamente, porque a tecnologia dá apoio à pedagogia, e não vice-versa. Infelizmente, a tecnologia não serve de apoio para a velha aula expositiva, a não ser da forma mais trivial, como passar fotos e filmes. Para que a tecnologia tenha efeito positivo no aprendizado, os professores precisam primeiro mudar o jeito de dar aula. No meu livro, uso o termo “Pedagogia de Parceria” para definir esse novo método, no qual a responsabilidade pelo uso da tecnologia é do aluno – e não do professor.

ÉPOCA – Qual é a diferença básica entre a velha e essa nova pedagogia? 
Marc Prensky – 
Mudam os papéis de professores e alunos. Os alunos, que antes se limitavam a ouvir e tomar notas, passam a ensinar a si mesmos, com a orientação dos professores. Por isso a real necessidade de usar ferramentas que os ajudem a aprender. O papel do aluno passa a ser de pesquisador, de usuário especializado em tecnologia. O professor passa a ter papel de guia e de “treinador”. Ele estabelece metas para os alunos e os questiona, garantindo o rigor e a qualidade da produção da classe.

ÉPOCA – Poderia dar um exemplo prático? 
Marc Prensky – 
Suponha que um grupo de alunos precise aprender sobre o vazamento de óleo no Golfo do México. O professor poderia falar sobre o assunto. Mas seria muito melhor se em vez disso ele fizesse perguntas relevantes para os alunos. Orientados por essas questões, eles pesquisariam por conta própria e trariam respostas que podem ser expostas e compartilhadas em projetos escritos, em vídeo ou em qualquer outra mídia. O papel do professor seria, então, revisar e discutir essas respostas com a classe para ter certeza de que todos os alunos entenderam completamente todos os pontos. E também que a produção dos alunos foi profunda e rigorosa o suficiente para aquela série.

ÉPOCA – O senhor diz que o professor não precisa ter o mesmo conhecimento da tecnologia que os alunos. Como isso é possível? 
Marc Prensky – 
Da mesma forma que pessoas que ensinam sobre livros ou filmes não precisam necessariamente escrevê-los ou dirigi-los. Nós conhecemos as tecnologias pelo nome – e-mail, Wikipédia, PowerPoint. São ferramentas que executam alguma coisa. Em educação, elas servem para treinar algumas habilidades. O e-mail é uma ferramenta para se comunicar, a Wikipédia para aprender, o PowerPoint para apresentar. Os verbos é que importam aqui. Eles são as habilidades que queremos que nossos alunos aprendam. E essas habilidades serão sempre as mesmas, mesmo que os nomes das ferramentas mudem. E-mail, por exemplo, já mudou para SMS e Twitter. Os professores precisam se focar nos verbos, não nos nomes.

ÉPOCA – Qual é o maior desafio dos professores que adotam esse tipo de ensino? 
Marc Prensky – 
Abrir mão do papel de controlador para assumir o de guia dos alunos. Isso significa deixar de explicar tudo de uma vez para todos e passar a criar questões que deem o caminho das respostas certas para cada um deles. Eles têm de aprender como ajudar os alunos a encontrar, sozinhos ou em grupo, respostas rápidas. Um professor me disse uma vez: “Eu costumava ensinar um assunto. Agora eu ensino meus alunos”. O professor eficiente faz as duas coisas e ainda prepara seus alunos para um futuro desconhecido priorizando habilidades, não o conhecimento.

ÉPOCA – Muitos professores são eficientes usando técnicas que não envolvem tecnologia, como mostra o trabalho do educador americano Doug Lemov (autor de um livro sobre práticas de professores para estimular os alunos a prestar atenção nas aulas). 
Marc Prensky – 
Certamente existem professores que fazem um excelente trabalho usando o método tradicional, mas eles são minoria. O sucesso de Lemov em suas escolas é louvável. Mas em educação nós temos dois objetivos: educar nossos estudantes para o dia em que eles partirem para a próxima série ou para um emprego e, ao mesmo tempo, educá-los para o resto de sua vida. No passado, quando as coisas mudavam devagar (ou não mudavam), esses dois objetivos eram um só. Agora eles divergiram, e muito, porque o futuro dos estudantes será muito diferente de sua vida de hoje. Lemov fala apenas do primeiro objetivo. Ele provavelmente está certo ao dizer que os que recebem esse tipo de educação têm sucesso em avaliações do século XX ou até em entrar na faculdade do século XX. Mas o que nossos estudantes precisam é de uma educação para o século XXI. Nós precisamos prepará-los para um futuro desconhecido, no qual eles sobreviverão não por causa do que sabem, mas por causa de suas habilidades.

ÉPOCA – A tecnologia vai substituir as salas de aula? 
Marc Prensky – 
No longo prazo, tenho grandes expectativas em relação ao uso da tecnologia como ferramenta de aprendizado. Muitas escolas oferecem aulas on-line – e exigem que seus alunos as assistam. Talvez as escolas sempre existam, mas a sala de aula, como conhecemos hoje, não servirá mais para ensinar. Quando isso vai acontecer, ninguém sabe.

Fonte: http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI153918-15224,00-MARC+PRENSKY+O+ALUNO+VIROU+O+ESPECIALISTA.html

iPad pra todo mundo

É uma festa, uma festa tecnológica. Vamos dar giz pra todo mundo e a educação vai melhorar. Vamos dar computador pra todo mundo e as crianças serão mais inteligentes. A versão nova é dar iPad pra todo mundo e resolver o problema da conexão. Conexão a quê? Com a educação é que não é, né? E o professor? Onde fica? Escondido atrás de seus dispositivos móveis, sem ler nada e sem estudar. Ah, ralando demais pra pagar as contas básicas também. Vamos brincar de forca enquanto o salário não vem.

Desculpe aí o pessoal positivo, alto astral, pró-tecnologia de qualquer espécie, superanimados com as novas possibilidades. Desculpem mesmo, gente. Não consigo ser assim tão feliz. E bem que eu tento. Mas é que minha amiga trabalhava para o estado e uma das tarefas dela era ver o que tinha acontecido com os computadores que as escolas ganhavam. E aí ela viajava léguas, chegava na escola e a diretora (ou o diretor) tinha a maior má vontade pra mostrar onde está o tal do "laboratório de informática". Pronto. Depois de meia dúzia de cafezinhos e de destilar bastante simpatia, lá ia alguém abrir a porta do recinto, depois de muito procurar as chaves perdidas. E certa vez, meio chorosa, minha amiga me contou o cenário que viu quando um desses laboratórios de informática foi aberto: pombos, muitos pombos, faziam as torres das máquinas de apartamentos. Vejam que romântico. Um verdadeiro pombal no meio dos circuitos. Ah, as máquinas sequer haviam sido ligadas.

Num curso que dei em algum lugar, desse tipo de empreitada que dizem que é "reciclar professor" (ai, acho terrível essa nomenclatura que também se aplica ao lixo), os colegas, empolgados com tanta novidade, vinham me contar como era difícil manter as máquinas funcionando em suas cidades. Eram municípios do interior de Minas Gerais. Recebiam máquinas, apoio inicial, etc. etc. Só que computadores, como 99% desses dispositivos, precisam de manutenção. (Os outros 1% não têm mesmo conserto e são descartáveis). O que acontecia era que havia um técnico de informática, funcionário do estado ou terceirizado, não me lembro, para atender algo assim como vinte ou trinta cidadezinhas e suas escolas computadorizadas. Bom, o resultado era que as máquinas iam estragando, iam sendo encostadas e ficavam, quase uma eternidade, à espera do príncipe encantado.

Isso dá aquela sensação de estômago embrulhado, não? A mim, sim. Outro dia, num simpósio em Brasília, eu ouvia o relato, em tom grave, de uma professora de São Paulo. Ela comentava: "o que eu sei desses projetos de um computador por aluno é que a maior dificuldade é o professor saber o que fazer com as máquinas em sala de aula". Bom, bastante compreensível. Se a pessoa não é usuária de web ou de informática, como pensará projetos interessantes para assimilar em sala de aula? Se o indivíduo não tem tempo para estudar e se atualizar, que milagre operarão nele? Melhor: essas máquinas substituem a agência das pessoas? Claro que não. Nem precisa de curso para saber disso.

Tenho colegas que andam saltitantes de alegres com essa história de estados ou o governo dar iPads para os professores. Também dei lá meus pulinhos, mas não eram bem de alegria. É que fico perplexa com a superficialidade das soluções. Fico mesmo embasbacada e chego a perder parcelas de sono por conta disso. Será que é muito difícil de entender? Se alguém não tem condições dignas de trabalho (e de vida mesmo), não adianta dar um iPad, um refresco ou um jogo de resta um pro cara. O negócio é saber o que fazer com as máquinas. Mas deve ser bem difícil de compreender a profundidade desta condição.

iPad é um dispositivo de certa marca para... mandar mensagens, brincar, jogar, escrever (pouco, pouquíssimo), ler (muito) e tal e coisa. Há outras tantas marcas de tabletes (sim, em português) por aí. Fico intrigada com essas palavras que vão e voltam de moda. Moda mesmo. Tablete é um desses casos interessantes. A gente só falava disso em relação a comida, chocolate e assemelhados. Como uma coisa se parece com a outra, talvez alguém tenha dado esse apelido meio metafórico em inglês, tablet. Mas aí a coisa custa a vir para o português.

Não tenho nada contra tecnologia. Bem pelo contrário, como comprovam minhas ações por aqui e por aí. Só que eu fico cansada de certos papos e discursos de vez em quando. Meu amigo Marcelo, da Unicamp, gosta de lembrar que os discursos sobre tecnologias e escola têm sempre um tom de "estou dentro" e você "está fora". Os textos sobre "letramento digital" do professor, por exemplo, têm, em sua maioria, um tom de "vou te ensinar como se faz". E o negócio seria subverter isso e admitir que todos somos aprendizes nessa seara.

Um americano chamado Marc Prensky inventou, num artigo, aquela história dos "nativos digitais" e, por contraste, dos "imigrantes digitais". Isso vem sendo repetido, papagaiamente repetido, no Brasil, a torto e a direito. O pior: muita, mas muita, gente nunca leu os artigos do autor, no original, antes de sair falando disso por aí. E os contornos do que ele diz são bastante discutíveis. Bom, só que essa história colou (na ciência também tem isso) e os nativos seriam esses jovens (só jovens) que sabem muito de computador porque isso lhes é natural. OK. Minha gente, esse discurso de que todo professor é velho, é imigrante e não sabe nada já cansou. Foi com ele que eu comecei esta crônica, aliás. Mas vejam: há, sei lá, cerca de duas décadas os computadores (e a cibercultura, que é dinâmica) estão aí e as pessoas mudaram. Vamos na levada da lógica: professores são pessoas. Se toda pessoa mudou, então professores também mudaram. Touché. Muitos professores se formaram nas faculdades, muitos estão nas salas de aula, fazendo projetos bacanas que empregam ferramentas digitais. O que ocorre é que grande parte desses projetos poderia, tranquilamente, ser feita sem equipamentos eletrônicos. Já vi muitas atividades "modernas" serem cópias quase exatas de velhas tarefas escolares... só que agora com tomadas ou sem fios.

Afinal, o que eu estou dizendo? Que os professores precisam mais de criatividade e do propiciamento de suas inteligências do que de máquinas novas. Sai até mais barato, quem sabe? Se bem que é claro que alguém fez essa conta antes de comprar os iPads. Provavelmente foi assim: se eu der esses brinquedinhos pra esse pessoal vai sair mais em conta do que qualificar todos eles e permitir que eles tenham ampliado seu letramento digital. A conta fecha.

Claro que ganhar iPad é bom. Também quero o meu, ora, bolas. Quem não gosta de ganhar brinde? Todo mundo curte demais um picolé depois do outro, uma necessaire que vem na compra do xampu, etc. Não perco uma. Mas o que vou fazer com ela? Não me venham com aquela resposta que veio primeiro à cabeça. Vamos manter a diplomacia.

Seguinte: professor que ganha mal pra caramba não tem condições de ficar preparando aula bacana nem nos moldes tradicionais, quanto mais com dispositivos que ficam trancados em salas com ar-condicionado. Professor que sabe o que fazer, que deseja experimentar novas tecnologias para dar boas aulas (péssimas aulas também rolam com tecnologia e tudo), faz isso até com os aparelhos celulares dos alunos. Nem se abala com a precariedade da escola. Mas o ideal não é isso, claro. O ideal é crescer todo mundo junto, a informática e, principalmente, o elemento que fica entre a cadeira e a tela do computador. 


Ana Elisa Ribeiro 
Belo Horizonte, 13/4/2012

Educação e Tecnologia


Saíram dois ótimos textos sobre como o governo tem enxergado a questão da tecnologia nas salas de aulas das escolas públicas brasileiras. Há vários programas para aproximar a tecnologia de professores e alunos, mas nenhum programa sério para estabelecer uma relação de ensino/qualidade. Não há projetos sérios para melhorar a carreira de professor, tanto financeiramente como profissionalmente. Todos sabemos a importância primordial que professoras e professores tem nesse país, mas a realidade em que vivem atualmente, numa profissão extremamente desvalorizada, não reflete essa importância. Sem reconhecimento profissional, dificilmente se terá professores motivados. Portanto, apenas distribuir computadores e tablets não resolve nada.
Vale lembrar que muitas pessoas que estão nas salas de aulas lecionando não queriam estar ali. Os cursos de pedagogia tem inúmeros alunos que buscam apenas um diploma universitário, afinal existem inúmeros cursos de pedagogia e pouquíssimas escolas de aplicação. Os estágios são pouco supervisionados e muitos nem cumprem toda carga horária dos estágios em sala de aula. Há também os professores que estão e querem continuar lecionando na sala de aula, mas que além dos baixos salários enfrentam a violência e a falta de apoio do governo.
Programas como o ProUni promovem a formação de professores para as escolas públicas, mas não permitem que escolham outro curso que não seja pedagogia ou licenciaturas. Por outro lado, há várias pessoas que gostariam de estar lecionando nas salas de aulas, mas que no sistema atual não sentem que teriam êxito, porque não encontram liberdade e apoio para aplicar novas dinâmicas e não teriam reconhecimento profissional perante a sociedade. De nada adianta formar uma legião de professores se eles não querem realmente estar em sala de aula, se estão ali por falta de opções, porque não conseguiram passar em outros cursos e ter outras profissões.
Escola de Ensino Fundamental Roberto Mubarac. Foto de Agência de Notícias do Acre no Flickr em CC, alguns direitos reservados.
Em As mentiras convencionais de nossa educação, Lincoll Secco enumera diversas mentiras dadas como soluções para a educação brasileira. Cita, inclusive, o arremedo de solução que o governo criou quando foi cobrado a abrir mais vagas nas creches e na educação infantil:
4. Não é verdade que a redução da idade de ingresso na escola atendeu critérios pedagógicos. Como as creches se tornaram um direito reivindicado pelas mães e custa mais barato abrir um turno na escola fundamental, os governos reduziram a demanda por creches fazendo as crianças saírem mais cedo delas.
5. Não é verdade que aumento salarial substancial não melhora a educação. O problema é que um professor carece de salário e status. A relação pedagógica é baseada principalmente na autoridade conferida ao docente pela avaliação, idade, conhecimento e respeito social. Como vivemos numa sociedade capitalista, é claro que a maior parte desses atributos depende da renda. Ou seja: do salário!
A demanda por berçários e creches no Brasil é tão alta que nem as instituições privadas dão conta, especialmente vagas no período integral. Há mães e pais que entram na fila da vaga antes do parto da criança. Uma das melhores soluções seria flexibilizar o horário de trabalho de mães e pais para que eles possam ficar mais próximos dos filhos nesses primeiros anos, mas sabemos que o capitalismo não está preocupado com isso. Se não há creches com quem mães e pais vão deixar as crianças? As empregadas domésticas cada vez buscam novas oportunidades no mercado de trabalho e babás especializadas fazem bem ao cobrar alto por seu trabalho. Atualmente, as famílias são pequenas e muitas vezes não há uma avó, madrinha ou outro parente para ficar com as crianças enquanto mães e pais trabalham. As pessoas terão que resolver essa questão, mas é preciso compreender que o bem estar das crianças é responsabilidade de toda a sociedade.
Em Ipad pra todo mundo, Ana Elisa Ribeiro fala justamente da simplicidade dos programas que apenas distribuem o instrumento tecnológico, mas não capacitam ninguém:
Tenho colegas que andam saltitantes de alegres com essa história de estados ou o governo dar iPads para os professores. Também dei lá meus pulinhos, mas não eram bem de alegria. É que fico perplexa com a superficialidade das soluções. Fico mesmo embasbacada e chego a perder parcelas de sono por conta disso. Será que é muito difícil de entender? Se alguém não tem condições dignas de trabalho (e de vida mesmo), não adianta dar um iPad, um refresco ou um jogo de resta um pro cara. O negócio é saber o que fazer com as máquinas. Mas deve ser bem difícil de compreender a profundidade desta condição.
Afinal, o que eu estou dizendo? Que os professores precisam mais de criatividade e do propiciamento de suas inteligências do que de máquinas novas. Sai até mais barato, quem sabe? Se bem que é claro que alguém fez essa conta antes de comprar os iPads. Provavelmente foi assim: se eu der esses brinquedinhos pra esse pessoal vai sair mais em conta do que qualificar todos eles e permitir que eles tenham ampliado seu letramento digital. A conta fecha.
É moleza fazer propaganda e dizer que está equipando as escolas com equipamentos da moda de última geração, mas o que isso realmente muda na vida de professores e alunos que convivem em salas super lotadas e com grandes barreiras comunicacionais? Fora a falta de autoridade, afinal o status dos professores socialmente é minúsculo.
Os jovens conhecem a tecnologia e mesmo para os mais pobres as lan houses foram uma importante porta de entrada, mas não há educação para cidadania por si só. É preciso aprender por meio das relações interpessoais, a criatividade pode ser estimulada de diferentes maneiras fora do meio digital e ela é fundamental para o aprendizado, pois é o contato com o concreto que facilita o caminho para o abstrato.
Li ontem que uma lei declarou Paulo Freire patrono da educação brasileira. Mais do que nunca é preciso retomar tudo o que Freire ensinou, que a tecnologia é importante, mas o fundamental é promover a educação por meio do cotidiano do aluno, deixando claro o quanto a política e os sistemas sociais influenciam na educação. Afinal, sempre há quem ganhe com a desvalorização da educação pública brasileira.